Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide descoberto em 1861 por Giovanni Schiaparelli 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e centro mundial de estudos em mitologia (Hispéria).
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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pequenos apontamentos sobre Augusto Gomes, o ortopedista da rua Cinquenta

Augusto Gomes é filho de Ernestina Guterres e de Manuel Gomes.
Augusto Gomes completará cinquenta anos durante a próxima semana.
Augusto Gomes veste capacinho preto como a noite.
Augusto Gomes gagueja aos dias de semana.
Augusto Gomes receitou sapatos ortopédicos a 4 gerações diferentes de hisperianos.
Augusto Gomes mantém consultório aberto na rua Cinquenta desde que a rua Cinquenta é rua Cinquenta (dantes chamava-se rua Calma como o mar na primavera de Axulkiehu, uma pequena cidade maia que já não existe, se a observares a partir de determinada perspectiva.)

Em Hispéria são gratos a Augusto Gomes porque:
a) endireita os pés das crianças;
b) sugeriu a dona Cândida que calçasse o sapato direito no pé esquerdo e o sapato esquerdo no pé direito;
c) casou com dona Chiquinha de Jesus, que a todos cansava com a fúria de casar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pequeno apontamento sobre o crescimento das árvores em Hispéria

O bufão azul encosta a cabeça a um cântaro de água e sonha com a lua nas mãos de uma menina. Assim que acorda do sonho acordado, e num repente, tange o alaúde com bastante exactidão e declama enlevado um terceto marítimo. A corte aplaude.

(0 crescimento das árvores em Hispéria decorre como noutro lado qualquer, e é bastante aborrecido para descrever, ainda pior para ler.)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Pequenos apontamentos sobre os peixes de Hispéria

peixe cidade
1. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar a não ser através de uma técnica específica dominada por poucos (E esses poucos são realmente poucos: o professor Garvan, que pela manhã come pimentos padrón com açúcar, e a sua mulher, Adrize, que prefere compota com queijo de cabra.)
2. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar a não ser a horas próprias.
3. Os peixes de Hispéria não mostram grande respeito pela abordagem tradicionalista à mitologia da pesca, embora sobre o assunto prefiram guardar reserva.
4. Os peixes de Hispéria são azuis e amarelos como tantos outros animais que existem sob e sobre o mar, com excepção do lobo ibérico, do gnu, da lebre americana e do bufão pardo, que não querem ouvir falar em senhoritas rodando sombrinhas.
5. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar quando as crianças choram nem quando se canta o bolorento hino de Hispéria, composto pelo maestro Javier y Javier, especialista em mitologia da música.
6. Pescar os peixes de Hispéria foi assunto tratado e discutido 20 anos atrás em Hispéria; Garvan e Adrize saíam sempre vitoriosos das discussões e por isso os peixes de Hispéria deixaram de ser falados.
7. "Fui pescar!": eis o que deve ser anunciado por alguém que regressa da pesca.
8. Os peixes de Hispéria entram na categoria "peixe urbano" quando vendidos no supermercado.
9. Não havendo mar em Hispéria, os peixes de Hispéria nadam livremente nos espaços restantes.
10. "Os peixes de Hispéria são cabrões", é a difamação mais comum a que estão sujeitos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

1991, ano da edição de Nevermind


el caballo tabernaEm 1991, ano da edição de Nevermind, o Bairro Pollente transformou-se num lugar de peregrinação para os admiradores dos Nirvana. A própria banda visitou o Bairro Pollente e ofereceu um poeirento concerto que transformou o sujo bairro numa colossal montra de flanela e calças de ganga rasgadas. 21 de junho de 1992. 10 anos atrás. Chico Fuentes, o anão dono da taberna El Caballo junto à estrebaria de Alveriana, garante: Não me faltam clientes por causa da chuva salgada, muitos levam o pão com tomate para a rua e põem a mão fora do alpendre, dizem que faz bem aos males de fígado e de caganeira. Não me faltam clientes por causa da chuva salgada, repetiu enquanto despejava uma garrafa de vinho no meu copo de vidro estalado, uns quantos dormem ali mesmo na estrebaria, e aponta lá para fora. Um cabrão de Madrid cheio de saburra na cara, um problema de pele qualquer que diz ter apanhado na Guerra do Golfo – um cabrão que nunca foi à Guerra do Golfo -, veio a mando de um António Guerra, um cabrão que vendia armas aos terroristas do Médio Oriente, para procurar alívio para a comichão e solução para a feiura. Passou duas noites e dois dias ao relento debaixo da enorme tempestade de 1995. Acabou com a cara desfeita. Morreu dois dias depois no Hospital de Hispéria. É uma chuva traiçoeira como um remédio, pode matar-te se for a mais.

28, o número de mortos nas minas


mina alveriana
Cheguei a Hispéria no sol abrasador de 21 de junho de 2012. Nos últimos dias ameaçou cair uma tempestade salgada e o cheiro iodado das nuvens altas e negras esvoaçava como roupa pela altura da montanha. Puxei o pano do bolso e sequei-me novamente. O pó da estrada baralhado com a humidade salgada formava pequeninas gotículas como unhas de crias de gato prontas a espetarem-se na pele. As tempestades salgadas começaram nos anos 90, no auge do grunge, quando nas ruas da pequena cidade vizinha, Alveriana, os jovens dos bairros pobres, furiosos pela opulência dos donos das fábricas de sal, invadiram as minas até às profundezas e estoiraram com elas à força de explosivos. Eram 28. Morreram 28. Dizem isso: o sal da mina subiu ao céu assim como o sal das lágrimas das mães e o sal das lágrimas das avós e nunca mais parou de chover água salgada.