Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide descoberto em 1861 por Giovanni Schiaparelli 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e centro mundial de estudos em mitologia (Hispéria).
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terça-feira, 24 de julho de 2012

O Clube das Incertas Viagens e Remotas

No Clube das Incertas Viagens e Remotas juntam-se frequentemente duas velhas que sabem muito bem jogar o bridge e conversar sobre os mais diversos assuntos. Ocasionalmente, brindam fora de horas a factos tais como a Tomada da Bastilha e a queda do castelo de Montblanc, no norte França, às mãos da dinastia dos Sioux, que de índio ostenta apenas o nome. Oleonor, a turca, e também a mais velha das velhas, queixa-se amiúde da perna direita e refere que se não fosse o cão alsaciano que deixou na sua casa do lago, em Tuz Baraji, jamais a Turquia a tornaria a ver mancar.
- O Kirse ladra de acordo com a hora do dia e com a cor do céu. As saudades são a pior das campanhias.
Lá fora, a noite cai com esplendor, e as brasas escondidas no céu acendem-se por ordem dos viajantes do tempo. Uma aragem surda corre baixinho nas ruas e o silêncio regressa ao lugar que sempre conheceu. Hispéria alonga os braços e desfalece no canapé.
Encostados a uma mesa do canto, eu e o meu tio bebemos cafés calados. As velhas falam alegremente sobre fatalidades; como falecer com dignidade, é esse o tema da conversa. Oleonor insiste: a alma do viajante não reconhece a morte como sua. A ossuda Ingrid defende a universalidade da morte, mas sem grande convicção, pois, apesar da racionalidade do seu argumento, também lhe custa admitir que o viajante não passe de um mero mortal e não habite o mesmo céu de Zeus ou de Hera.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os viajantes do tempo

morrison house hispéria
Encostados à parede da igreja de Paula Mónica repousam 5 viajantes do tempo. As roupas, apesar de comuns a todos os viajantes do tempo, surpreendem sempre os olhos de quem as vê: um manto vermelho vivo como sangue cobre-os da cabeça aos pés, as botas reforçadas a aço espelham o sol da tarde de Hispéria e um colar de ossos de foca enfeita rudemente o pescoço. Não falam com ninguém a não ser entre eles. De nada adiantaria, ninguém percebe o que dizem, apesar de saberem todas as línguas do mundo, as que morreram e as que sobreviveram. Viajam desde sempre. O meu tio Alcides avistou-os pela primeira vez aos 14 anos, conta-me. "Punha-se um fim de tarde em rebuliço no Norte de África, junto à fronteira de Marrocos com a Algéria. Um vento fortíssimo soprava do deserto, não um vento sujo de areias como seria de esperar, mas um vento quente que se sentia junto à cara e que acariciava as faces açoitadas da tarde quente. O meu pai e o companheiro de viagem, o bom lord Andrew Morrison, resolveram assentar arraiais porque a noite prometia gelo férreo. Entre guias, carregadores, fotógrafos, escribas e alguns jornalistas, a comitiva contava umas 50 pessoas para 200 camelos. E foi então que os vimos. Começaram por parecer luzes ténues e hesitantes como as primeiras estrelas da noite, para se tornarem intensos focos de luz, e por último 5 pequenos sóis que brilhavam e brilhavam à medida que de nós se aproximavam. Da duna onde os avistámos, a cerca de 2 quilómetros, até à caravana, demoraram 30 segundos exactos, cronometrados pelo relógio do bom lord Andrew Morrison. E tão depressa chegaram como partiram. Passaram pelo meio da caravana falando alegremente e rindo alto. Ignoraram-nos como o deserto nos ignora a nós, e prosseguiram um caminho só deles sabido. Levaram com eles o horizonte porque anoiteceu abruptamente. Lord Andrew Morrison julga ter distinguido uma frase em língua ilíria, que poderá ser traduzida por algo como "segue sereno o rio para no mar morrer", mas pode ter sido o vento soprando de modo caprichoso."
Apenas em Hispéria encontramos viajantes do tempo a repousar. Segundo dizem, a sua chegada levanta o céu vermelho do Câmbria, e até o terno escuro da noite hisperiana se pinta de clarões vermelhos como brasas perdidas na borralha.