- Não soube dizer-lhe que o meu amor acabou no dia de festa. Tudo muito bonito. As luzes tremeluzentes de mil e uma cores iluminavam de forma assombrada as ruas desalmadas, e os cães espantados pelos sons surdos corriam ganindo para as suas casotas. Dois homens, julgo ter adivinhado Ambruze Soledad e Almbruzivo Aldegunde, cantavam uma velha canção de saudade, arrancando choro sentido de seus alaúdes vicentinos. Marília Continque assava peixe no seu velho assador de ferro fundido, sacudindo com vigor o braço, chegando ar às brasas, que se alegravam, crepitando em tons vermelhos, laranja e amarelos. Ao fundo da rua, quatro vultos pareciam arrastar um homem morto pelos tornozelos, produzindo o mesmo som que uma cobra gigante faria ao arrastar-se na terra seca. E eu soube que o meu amor acabara, mas não lhe disse. A minha querida mulher dormitava no canapé azul e verde, povoando, provavelmente, o seu sono com os mais deliciosos sonhos. E eu não soube.
domingo, 2 de janeiro de 2022
domingo, 17 de outubro de 2021
Juan el Pequeño
- Sempre fui muito pequeno, mas minha mãe alimentou-me de acordo com uma velha tradição celta. Cresci tanto que a casa se tornou pequena para mim, e minha mãe, que morreu de morte comum, entregou-me a uma tia que habitava uma terra distante, Inglram, nas costas da Nova Caledónia. Minha tia, cujo nome lembra águas-pés brancas e verdes, viajava no dorso das baleias duas vezes por ano, maio e um outro mês aleatório. Comia caranguejos e algas. Desde que torceu o pé nunca mais foi a mesma pessoa.
segunda-feira, 24 de maio de 2021
Moreno do FMAM
- As modas e os mitos partilham a mesma raiz no pensamento: a procura pelo absoluto, o que, evidentemente, o supõe ab initio. Porém, se necessário se torna supor o absoluto, e não afirmá-lo em claras palavras, como podemos nós, em pleno juízo, confirmar que o absoluto é aquilo se apresenta ser?
Moreno é o único elemento ativo do Famoso Movimento Anti-Mitos (FMAM), recentemente oficializado junto das entidades competentes das regiões.
- Tivemos assento num dia escuro de Novembro; tão escuro que nem a tinta da caneta se percebia no papel. Diria um dia mítico, caso acreditasse em mitos.
Moreno tem na cara a cor branca de uma nuvem tímida de Verão. Nos braços magros como ramos secos de árvore, nascem tatuagens de cobras, serpentes e lagartos azuis e verdes, que parecem mover-se languidamente sob o calor soturno de Hispéria.
- No auge do FMAM, sete meses antes do assento oficial, éramos quatro elementos bastante ativos. Resto eu. A Carmen diz ter-se dedicado ao cake design, a Olívia entregou-se ao pára-quedismo aleatório, o Carlitos emigrou para o Rio de Janeiro, onde sonha construir uma escola para formigas com as próprias mãos. Todos eles, na verdade, apresentarem argumentos válidos para deixarem o FMAM. Todavia, creio que no fundo de cada um deles forças maiores operaram.
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Olinda Kiznetsova
- Durante o Outono de 2002 não tive dores. Na farmácia de Lupa-Lupa, nos confins orientais da Rússia, aconselharam-me um xarope fabricado em 1879 por Vladimir Vladimir Nubokav, um lunático fabricante de bicicletas e mergulhador de rios e riachos utilizando um complicado sistemas de vasos de barro. Resultou. Infelizmente, era o único frasco e ninguém registou a receita. Tentei falar com a descendência de Vladimir Vladimir Nubokav, mas das trezentas pessoas que moram na aldeia de Nubokav, nos confins orientais da Rússia, todas descendentes de Vladimir Vladimir Nubokav, nenhuma quis falar comigo, à excepção de Vladimir Vladimir Vladimir Vladimir Nubokav, mas era um pouco tonto e só pensava em sexo.
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
José Silva
- Não acredito que possam ser espirros de elefantes cor de rosa.
- Só não acredita quem não quer.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Samaria Yoander
- Sinto-me feliz assim. Bem sei que a felicidade talvez seja um conceito esconso, sobrevalorizado e alimentado pela cultura pós-consumista. Ainda assim, não sendo a felicidade a que outro horizonte poderemos nós aspirar? Já tentei praticar outros objetivos sublimes, por exemplo o sofrimento e o questionamento radical, mas em nenhum destes me senti particularmente confortável durante mais do que 3 meses. A procura da felicidade dura-me há 4 meses, e para já tenho resistido à infelicidade que é nunca lhe chegar.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Nandu
Nandu e Analitu chegaram 3 anos atrás a Hispéria e nunca mais quiseram ir embora. Ganham a vida como músicos de rua e habitam uma cama fria sob a ponte do rio Amarelo, a sul da cidade.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Pierre-Yves Andour
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Abhijat Abhijat
“Esquecer o mar e viajar” - é assim que Abhijat Abhijat descreve
a forma como inspira profundamente e submerge no caldo das ostras do mar de Ratnagiri.
“Os primeiros dois minutos são de absoluto abandono. Move-nos a água interna, a
água das veias, a águas de milhões e milhões e milhões de animais marítimos”. Além
de ostreiro, Abhijat Abhijat é um
dos maiores poetas indianos vivos, tendo sido, em 1995, distinguido pela
academia indiana com o prémio carreira por 90 anos ao serviço da poesia. “Eis o
mar / e nele me afogo” são os seus dois versos mais famosos, profusamente
cantados pelas velhas e novas gerações de cantores e trovadores no entardecer dos
bares marítimos da Índia. Poderemos encontrá-lo junto a uma banquinha construída em
madeira balsa, ao fundo da Rua 13, uma das artérias comerciais mais importantes
de Hispéria, vendendo chapéus de palhinha e coloridos cata-ventos. Ali permanecerá por 2 meses, esperando que os ventos quentes reencontrem o aroma da canela nas ruas de Ratnagiri.sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Lista de objectos que Varazabi, a ugandesa, guarda na sua malinha de osso e pele de leopardo
2. Uma semente de rutileiro, árvore abundante na zona setentrional de Urj cuja principal característica é brilhar nas noites de tempestade.
3. A fotografia de um chimpanzé chamado Urj comendo um fruto amarelo semelhante a uma banana.
4. Um cordão de tecido prateado e roxo usado durante as cerimónias religiosas de Urj, o deus das chaves, das sementes, das fotografias, e dos cordões - na verdade, o deus de tudo o que brilha e de tudo o que se apaga, tal como descrito no livro de Urj, um livro de 333 páginas escrito em folhas de palmeira e de bananeira.
5. Um rádio a pilhas oferecido por Krugman, um viajante alemão coxo especializado em viagens no árctico.
6. Areia quente do deserto de Urj.
7. Um gafanhoto verde embalsamado.
8. Um casulo de amaxinadraneres, a majestosa borboleta dos pântanos de Urj que voa 450 quilómetros até chegar ao meio do deserto de Urj e aí morrer sob o brilho da lua.
9. Uma caixinha de chá do Ceilão com 800 anos.
10. Um frasquinho azul com os cordões umbilicais secos dos seus 50 filhos: Abelinduna, Retuinda, Tuounda, Reundoio, Qenlotue, Aniolunde, Creiunsadute, Veriulundo, Olunidruede, Eqalondeuinde, Lolundoeu, Kiundoeundu, Juliunedui, Kuoluilunde, Jundounde, Mundoeonde, Loeonde, Uilounde, Unonde, Pinudonde, Tuinduendo, Ruentonde, Tywunde, Pondueinde, Quindoende, Munde, Londulinde, Linduindeuinde, Mundiendi, Suiondeuinde, Soindeonduei, Kulionde, Pondeiunde, Sazuindonde, Zuzoende, Bondeuinda, Numbuindeonde, Kuimbeonde, Deonunde, Eundouinde, Aquindoende, Londeuinide, Pondeloindonde, Londuende, Desuendonde, Suindedonde, Azuonde, Quindeonde, Toundeonde, Conduinda (grafia dos nomes adaptada a partir do dialecto exclusivamente oral de Urj).
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Joleen
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Um país chamado Gonçalo M. Tavares
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Jusafim
Despede-se de mim e entra em casa. Amaguza segue-o docilmente.