Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide descoberto em 1861 por Giovanni Schiaparelli 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e centro mundial de estudos em mitologia (Hispéria).
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Josefina de la Cruz e Jesus
É o seu nome. Vive nas águas-furtadas de um prédio servido por um supermercado argelino. Detesta camélias e detesta chá de limão. Gosta de morangos e gosta de flores de maracujá - afirma com convicção serem as flores mais belas do mundo. Foi abandonada aos 53 anos pelo marido, Eduardo Afonso de la Paz, durante uma tarde triste de inverno. Os pássaros ainda voaram durante a manhã, explica-me. Durante a tarde morreram todos. Toneladas e toneladas de pássaros foram varridos do chão, e camiões carregados de pássaros mortos fizeram viagens durante uma semana. Foram levados para longe da cidade e queimados. Nunca mais o vi, o Eduardo. Foi visto por uma sobrinha no norte, a cerca de 300 quilómetros daqui, agarrado a uma estrangeira. Ainda lhe sinto a falta, entristece Josefina. Tem 89 anos e um talhão comprado no cemitério da cidade. Não quero ser queimada como um pássaro, diz.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Cronologia dos eventos recentes
21 de junho de 2012
Chegada a Hispéria e alojamento na estalagem Caliente y Fría.
Conheço Alvarez, o segurança-mitologista, que me aconselha a visita ao senhor García.
24 de junho de 2012
Encontro o senhor García, especialista em mitologia contemporânea, por um feliz acaso, no parque, enquanto jogava póquer com outros 3 velhotes. O senhor García diz saber quem eu sou e que não deseja falar comigo. Um dos 3 velhotes cospe para o chão, outro acena solenemente com a cabeça em sinal de concordância, e o outro mija-se nas pernas. “Cabron!”, exclama ele.
25 de junho
Flávia mostra-se muito interessada em saber quem eu sou e o que faço ali. Normalmente, explica ela, as pessoas não ficam mais do que 3 noites porque a canalização está sempre avariada.
26 de junho de 2012
Flávia continua muito interessada em saber quem eu sou e o que faço ali. Normalmente, explica ela, as pessoas não ficam mais do que 3 noites porque a canalização está sempre avariada. Sorri e esconde a cara. Os porcos furiosos do Angry Birds riem alto. Flávia exclama: “Cabron!”
27 de junho
Flávia faz questão de me mostrar a cave da estalagem.
Visito o museu da cidade, ou museu das chaminés, como é vulgarmente conhecido. Farei a sua descrição mais à frente.
Janto num restaurante chamado Ballet. As empregadas e os empregados de mesa, numa pausa da refeição, dançam um belíssimo bailado que emociona os clientes.
29 de junho de 2012
Alvarez enumera a minha genealogia e conta a história dos seus antepassados.
3 de Julho de 2012
Flávia convida-me para jantar na sua casa. Prepara-me tortilla e serve-me vinho. Mostra-me um sinalzinho na sua coxa direita e a seguir fazemos sexo.
5 de Julho de 2012
Flávia fala-me de Oliver. 2 cães atacam-me na rua. Uma velhota é atropelada por um inesperado tractor. A velhota insulta o tractorista. O tractorista é hospitalizado por suspeita de ataque cardíaco. A velhota conduz o tractor de volta aos campos agrícolas. Choveu durante a manhã.
terça-feira, 10 de julho de 2012
A relação de Morales com a poesia e com os poetas
Morales mora na Calle Ballada Amarilla 4 - assim chamada por homenagem a Federico García Lorca, que para ali mandou as suas urinas em exame, ao laboratório "La Orina Purina", e obteve resultados inconclusivos:
Apariencia:
color amarillo claro.
Causa:
Diabetes insípida o abundante ingesta de líquidos diluidos.
De resto, e tanto quanto se sabe, Lorca nunca visitou Hispéria a não ser através da urina.
Morales detesta poesia e detesta poetas, e faz questão de o afirmar logo que se levanta. "Lorca foi um cabrão. Lorca é um cabrão. Lorca será sempre um cabrão", grita Morales pela janela. De seguida, dirige-se à casa de banho, urina e verifica a cor. "Lorca é um cabrão", suspira aliviado.
Apariencia:
color amarillo claro.
Causa:
Diabetes insípida o abundante ingesta de líquidos diluidos.
De resto, e tanto quanto se sabe, Lorca nunca visitou Hispéria a não ser através da urina.
Morales detesta poesia e detesta poetas, e faz questão de o afirmar logo que se levanta. "Lorca foi um cabrão. Lorca é um cabrão. Lorca será sempre um cabrão", grita Morales pela janela. De seguida, dirige-se à casa de banho, urina e verifica a cor. "Lorca é um cabrão", suspira aliviado.
Chama-se a isto verão
Chama-se a isto verão. Catarina foi embora numa tarde de pleno agosto. Catarina não voltou. Chama-se a isto verão. Há muitos viajantes em Hispéria. De uma forma ou outra, todos somos viajantes, diz Flávia. Catarina e Flávia nasceram em Gondantes, um crescimento imberbe de casas pretas como as nuvens de inverno e de outono, e passaram a meninice juntas como se tivessem nascido no mesmo corpo. Flávia encosta-se ao fogão, mesmo ao lado do O-li-ber, passa as mãos nas folhas e recrimina-se por não lhe dedicar mais cuidado. Qualquer dia não dá mais pêssegos, diz. Dois anos atrás, no mesmo ano em que a Catarina partiu, soluça contidamente Flávia, o O-li-ber produziu quase 2 quilos de pêssego, o que é um esforço invejável para esta árvore que, embora viva e saudável como nenhuma outra, não passou ainda a infância das árvores. A Catarina trabalhou dois anos na estalagem como ajudante de cozinheira. Diga-se que era a maior trapalhona das trapalhonas das ajudantes de cozinha. Conseguia partir 2 a 3 caixas de ovos de seguida. O senhor Morales, o cozinheiro, um inexplicável mexicano em viagem pelo mundo, e que parou para ganhar fôlego em Hispéria, gritava-lhe muito, gritava-lhe tanto que perdia a voz. A Catarina chamava-lhe "cabron" e gritava ainda mais alto do que ele, e depois iam beber uma cerveja à rua. Chama-se a isto verão. Foi a última coisa que a Catarina me disse.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
O quintal de Alvarez
O quintal de Alvarez é constituído por duas parcelas simétricas: a primeira é dedicada à plantação de batatas. São batatas turcas, explica, trazidas pelos avós dos avós dos avós de Alvarez. Tudo no discurso de Alvarez diz respeito aos avós dos avós, e conta mesmo que não havendo memória de mar em Hispéria os bivalves não mentem: a verdade é só uma, em tempos houve mar nesta terra. De seguida conta a história dos primeiros viajantes que aportaram em Hispéria. Por mar, claro está, conta Alvarez. Eram animais pequeninos, soprados por uma vaga fortíssima de leste. Tal como os humanos, partilhavam segredos e anotavam mentalmente as respectivas genealogias, de modo que a ligação entre genealogia e memória começou aí, com esses animais pequeninos. Entretanto muda o sentido do discurso para falar da sua dieta, referindo que leva muito a sério os seus 120 quilos e que todas as manhãs come 5 pães com café. Ou então com leite. A outra parcela do terreno é dedicadas a investigações, e coloca um ar bastante solene quando diz "investigações". Com pás, picaretas e outros instrumentos de perfuração investiga o solo de Hispéria. Coisas muito importantes estão nesta terra, diz de olhos fechados. Nos anos que leva de investigações encontrou 2 latas de atum de uma fábrica entretanto falida chamada "Amor del Atún", uma boneca de porcelana com uma perna partida e um ramo de oliveira dentro, de olhos pintados a tinta da china e com um lenço na cabeça onde se pode ler "Muñeca Tonta"; encontrou também uma embalagem de lixívia da marca Neoblanc e um saco de lulas podres. Foi muito complicado perceber a que árvore pertenceria o ramo na boneca, e por isso recorri ao senhor Joaquín, especialista em mitologia botânica. Somos assim em Hispéria, mitologistas e viajantes; e alguns viajam no próprio quintal. Estou muito contente com as minhas investigações, é um processo bastante enriquecedor. Alvarez sorri.
sábado, 7 de julho de 2012
Pequeno apontamento sobre o mar de Hispéria
Não há mar em Hispéria. Não há mar na memória dos habitantes de Hispéria. O mar não existe. O mar é uma história contada pelos avós dos avós dos habitantes de Hispéria. O mar é a memória da memória dos habitantes de Hispéria, podemos dizê-lo assim.
Os bivalves que crescem nas paredes das casas de Hispéria não partilham do facto: resistem não apenas a um facto observável como também à memória de um facto. Quando muito, os habitantes de Hispéria e os bivalves encontram-se na memória da memória. E isso é todo um mar.
Os bivalves que crescem nas paredes das casas de Hispéria não partilham do facto: resistem não apenas a um facto observável como também à memória de um facto. Quando muito, os habitantes de Hispéria e os bivalves encontram-se na memória da memória. E isso é todo um mar.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Flávia
Flávia cultiva um jardim suspenso em casa. Através de um sistema que envolve muitas cordas, muitos pregos e muitos vasos, debruçam-se gerânios e begónias do seu tecto; um raminho de salsa espreita por cima do armário do pão e dos pratos; um pessegueiro anão frutifica entre a pia e o fogão. Chama-se Oliver. Flávia diz Oliver muitas vezes. Oliver é a sua palavra preferida, se assim o podemos dizer. Muitas pessoas usam uma interjeição ou uma asneira quando algo não corre bem, Flávia socorre-se de Oliver. O-li-ber: dito pela Flávia. E O-li-ber é o seu pessegueiro. As folhas do Oliver concorrem com o detergente da louça e com o bico do gás. Aquilo eu nunca uso, explica com desdém. O O-li-ber não gosta muito de calor, fica um ano inteiro sem florir se cozer batatas ou fritar uma salsicha. O-li-ber, repete a Flávia. Os morangueiros vermelhos escorrem pelas portas dos armários e no centro da cozinha, isolada, uma nespereira padece de doença terminal. Chama-se Olivia. O-li-bi-a, repete a Flávia. Foi-me oferecida pelo Pietro. O maldito. O-li-bi-a, repete a Flávia. Não tenho esperança na Olivia. Nasceu frágil, morrerá frágil. E se morrer, morreu. Não vou sentir-me triste por causa de uma nespereira. Tristes devemos sentir-nos pelas pessoas. Como pela Irene, a Velha, que morreu por causa de uma pneumonia e por causa do frio. Mais por causa do frio do que por causa da pneumonia, pois sem frio não lhe tinha chegado a pneumonia.
Os seios da Flávia refrescam as mãos como pêssegos primaveris.
Choveu em Hispéria esta manhã, e as pessoas sorriem e saltitam. Hispéria é uma cidade seca e escura. Há nuvens mas nunca chove.
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