Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide descoberto em 1861 por Giovanni Schiaparelli 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e centro mundial de estudos em mitologia (Hispéria).

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O matadouro municipal de Hispéria

tristao da cunha
Eduard Grass e Jennifer Grass, gémeos, gerem o matadouro municipal de Hispéria. E não só o gerem como matam tudo o que há para matar. A viver em Hispéria desde 2005, chegaram à cidade no dia de Todos os Aparecimentos, um dia muito celebrado. Padecem de asma e glaucoma, doenças endogâmicas comuns entre os habitantes de Edimburgo dos Sete Mares, capital da Ilha Tristão da Cunha, umas das remotas ilhas do arquipélago com o mesmo nome. Eduard Grass e Jennifer Grass sorriem muito e, sem pestanejar, abatem um boi gigante. O boi cai para o lado. Jennifer lava o animal com um potentíssima agulheta de água - na morte, os bovinos defecam com brutalidade. Eduard encosta-se a uma palete de caixas de madeira e acende um cigarro. Jennifer brinca com ele, fingindo que lhe vira a agulheta. Eduard estica o braço para trás, como que ameaçando dar-lhe uma palmada.
- Isto aqui é muito bom - diz Eduard Grass. - Em Edimburgo dos Sete Mares é um miséria: primos casando entre si, homens encornando as mulheres (muitas delas delas suas tias) com as sobrinhas... É o preço das restrições geográficas - e ri como um perdido, repetindo "restrições geográficas" duas vezes. - Isto até parece que estou na televisão a falar... é de matar a rir.
Jennifer aponta a agulheta aos pés de Eduard e molha-lhe os pés.
- Se não estás quieta levas uma palmada - diz, furioso, Eduard.
Jennifer vira-lhe as costas e volta ao trabalho.
- De modos que é isto - rebate Eduard.
Os gémeos deixarão a cidade durante o verão de 2014 e viajarão para a República da Guatemala, onde esperam empregar-se no matadouro municipal de La Nueva Guatemala de la Asunción.

sábado, 11 de agosto de 2012

"Ainda bem que o sol se pôs durante a manhã" - XIX Congresso de Doenças do Viajante - intervenção de Gertrude Viola (2)

- Caso Prático B - continuou a gordíssima enfermeira Gertrude Viola -, Armand Torrier. Perdeu o juízo durante uma viagem ao Parque Nacional Serra da Capivara, em busca de figuras rupestres inéditas desconhecidas por olhos humanos, com excepção dos autores, uns hominídeos insignificantes que pouco mais fariam do que desenhar figuras toscas nas cavernas.
Paul Eluird, arqueólogo e fervoroso praticante de mitologia rupestre, levantou-se de rompante e pigarreou fortemente, como que a pedir atenção. Gertrude Viola continuou.
- Ao fim de 2 meses perdido no meio daquele imensa e pavorosa pedreira, Armand Torrier sentiu uma picada numa perna e quedou-se prostrado diante de um amontoado de amazonita . Foi encontrado por Mamãe Silva e Papai Silva, dois índios tupi que por ali caçavam moscas, parando apenas para cozinhar cachupa de Cabo Verde em doses controladas, segundo informação dada pelos próprios ao Jornal de São Raimundo Nonato, "A Corneta de Nonato". A jornalista que os entrevistou, Laura Silva, emocionou-se com a tristeza dos olhos de Mamãe Silva, mas desse assunto me ocuparei no XXIII Congresso de Antropologia e Mitologia, no próximo dia 6 de setembro, nesta mesma sala.
Paul Eluird, o arqueólogo praticante de mitologia rupestre, pigarreou ainda mais alto de modo a mostrar a sua indignação. Num sus, e com um movimento cabeçal, escorraçou o carrapito do chapéu madeirense da cara, que ameaçava provocar-lhe um espirro pela forma insinuante como rondava a pedunculosa narigueta. Como não obteve apoio, ou sequer um subtil olhar aprovador, sentou-se novamente e espirrou fortemente, aliviado.
- Armand Torrier, no pico da sua loucura, gatafunhou esta imagem que agora partilho, ao mesmo tempo que gritava "Ainda bem que o sol se pôs durante a manhã".
Carregou no comando. Carregou novamente. Pediu desculpa, dizendo ser muitas vezes era atraiçoada pela tecnologia. Pediu ajuda a um assistente. O assistente estendeu a mão. Gertrude Viola entregou o comando e olhou muito interessada para a forma como o assistente resolvia o problema. O assistente carregou em 3 botões de uma forma ritmada e devolveu o comando. Gertrude Viola agradeceu e carregou novamente no botão.
- Aqui está! - disse por fim Gertrude Viola.
A plateia exclamou alto, horrorizada.

Eluird

- Anda comigo para a cama, esta mulher é estúpida - insistiu Flávia.
E saímos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

XIX Congresso de Doenças do Viajante - intervenção de Gertrude Viola (1)

Claude Rener, conhecido por Gandalf, o cinzento, e outras vezes por Ganfalf, o branco, habita um provisório salão da embaixada da Venezuela, na rua Sessenta. Claud Rener veste como Gandalf, do livro de J. R. R. Tolkien, e viu todos os filmes de Peter Jackson. Confirma que os filmes ilustram com grande fidelidade os livros.
- O filme do Senhor dos Anéis diz muito sobre os livros de Tolkien – vira as costas e o seu manto, branco ou cinzento, arrasta-se no chão, varrendo a porcaria como se de uma vassoura se tratasse.

- Muitos viajantes enlouquecem durante as viagens e assumem uma personagem fictícia no processo; diria mesmo que esse é o principal sintoma da doença mental do viajante.
A senhora que fala no XIX Congresso de Doenças do Viajante é a enfermeira Gertrude Viola, uma colossal mulher de quase duzentos quilos, que para todo o lado se faz transportar de 4 não menos colossais malas Louis Vuitton.
- Viajar é um perigo para a saúde mental, trata-se de uma actividade de desgaste brutal, não só físico como mental, e por isso aconselho, se possível, que o viajante transporte o seu psicanalista, o seu médico, o seu psicólogo, o seu advogado, o seu assistente social ou o seu conselheiro pessoal. Na falta destes, embora com menos impacto para a saúde do viajante, aconselho a companhia de um familiar próximo, por exemplo de um primo ou mesmo, tratando-se de viajantes séniores, de um sobrinho. Nunca se sabe o que poderá acontecer in media res, um cansaço vertiginoso, uma dor de cabeça alucinante, uma febre altíssima e inquebrantável, sombras no lugar onde deviam estar coisas vistas de viva visão, uma paralisação das pernas ou mesmo dos braços, uma catatonia absurda quando se passa uma fronteira: eis a doença do viajante.
- Esta mulher é estúpida – sussurrou Flávia, que igualmente assistia ao congresso, sentada a meu lado. – Queres ir para a cama?
Levantamo-nos vagarosamente, como se demorássemos um século em cada movimento.
- De seguida, apresentarei dois casos práticos de viajantes afectados pela Doença Mental do Viajante.
“Caso prático A: Claude Rener, o viajante conhecido por Gandalf, o cinzento, ou por Gandalf, o branco. Sintoma principal e de maior relevância: simplificação da própria anatomia interna; por exemplo, o estômago e o coração, na próprio-percepção de Claude Rener, passaram a ser um órgão apenas, um “estocoração”, nas palavras do doente. Claude Rener, durante a fase aguda da doença, recusava ingerir qualquer tipo de alimento por recear que viesse a afectar-lhe a circulação sanguínea."

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Pequenos apontamentos sobre Augusto Gomes, o ortopedista da rua Cinquenta

Augusto Gomes é filho de Ernestina Guterres e de Manuel Gomes.
Augusto Gomes completará cinquenta anos durante a próxima semana.
Augusto Gomes veste capacinho preto como a noite.
Augusto Gomes gagueja aos dias de semana.
Augusto Gomes receitou sapatos ortopédicos a 4 gerações diferentes de hisperianos.
Augusto Gomes mantém consultório aberto na rua Cinquenta desde que a rua Cinquenta é rua Cinquenta (dantes chamava-se rua Calma como o mar na primavera de Axulkiehu, uma pequena cidade maia que já não existe, se a observares a partir de determinada perspectiva.)

Em Hispéria são gratos a Augusto Gomes porque:
a) endireita os pés das crianças;
b) sugeriu a dona Cândida que calçasse o sapato direito no pé esquerdo e o sapato esquerdo no pé direito;
c) casou com dona Chiquinha de Jesus, que a todos cansava com a fúria de casar.

sábado, 28 de julho de 2012

Hashir, a cidade do vento

Paul Court visitou Hashir 11 anos atrás, durante o mês de Abril, o mês das festas do ar quente e do vento. Centenas de balões de ar imponente, pintados de todas as cores, pairavam na tarde amarela da cidade desenhando sombras fugazes nas ruas e nas casas. Os habitantes de Hashir, vestidos de branco e enfeitados com asas, tecidos flutuantes ou flores de dente-de-leão, sorriam e cumprimentavam-se. A cada largo ou clareira, bandas formadas por quatro ou cinco elementos sopravam instrumentos de vento, formando uma incomensurável e caótica melodia que abraçava a cidade. Celebrava-se o ar puro e os ventos que favoreciam a pureza da cidade. Múltiplas procissões serpenteavam as ruas, por vezes cruzando-se umas com as outras. À frente seguiam as Hubhas, as guardiãs das portas dos templos do vento desde o tempo de Moisés, ou, na sua indisponibilidade, alguém por si nomeado, geralmente crianças com não mais de 6 anos,  idade a partir da qual poderiam ser dedicadas a Moisés e aos ventos divinos.
Paul Court tirou a mochila, enxugou a testa com um pedaço de pano sujo e sentou-se quebrado pelo calor. Ouvira falar muito dos prodígios de Hashir. Durante 2 ou 3 dias, em pleno inverno, a cidade é fustigada por peixes voadores do Mar Arábico que viajam centenas de quilómetros, passando por cima de outras cidades e de outros países, para encontrar a morte nas portas de Hashir. Durante a segunda quinzena de janeiro, as árvores de Hashir adquirem uma tonalidade azulada desconhecida noutras partes do mundo; chamam-lhe a "quinzena da paixão das árvores", porque as árvores parecem estender os ramos umas para as outras, como se quisessem abraçar-se. Em agosto, no pico do calor arábico, pássaros de todo o país e dos países vizinhos habitam, por minutos, Hashir; e todas as varandas, todas as árvores, todos os postes, todos os terraços, todos os telhados, todas as ruas e todas as janelas se enchem de pássaros. A cidade cobre-se de penas e transforma-se ela própria numa interminável ave. Por fim, os pássaros desaparecem da mesma forma que apareceram, sem ninguém perceber como nem porquê.
Lá ao fundo, no meio da algazarra, cerca de uma centena de idosos ajoelha-se no chão e ergue as mãos ao céu em sinal de súplica. Na varanda de um edifício mais alto, uma belíssima mulher de seios descobertos lança jarros de água para a rua e ri freneticamente. No telhado de uma casa, dois homens disparam tiros para o ar. Na rua à direita, as crianças, descalças, lançam papagaios.
Uma mulher mais velha dirige-se a Paul Court. Olha-o muito fixamente e pergunta-lhe:
- Quem és tu, o que fazes na cidade do vento? - mas sem mexer os lábios, a boca, nada.
- Quem és tu, o que fazes na cidade do vento, homem? - e nada, a mulher não mexe a boca.
O som nasce claramente naquele corpo, mas não há gestos, não há movimentos, como se a velha falasse com o pensamento e as palavras aparecessem tão claras como aparece a música das bandas e a agitação dos habitantes de Hashir.
Um homem mais jovem, aparentando ter cerca de 30 anos, dirige-se a ele com ar reprovador.
- Não devias ter entrado na cidade neste dia, estrangeiro! - diz-lhe, sem mexer a boca.
- Não devias ter entrado na cidade neste dia, estrangeiro! - e não há movimento na sua boca.
O homem e a velha afastam-se e de seguida surge um grupo de 5 homens armados. Agarram em Paul Court pelos braços e arrastam-no. Durante 5 dias, os dias em que duraram as festas, Paul não viu ninguém, não falou com ninguém. Fechado num quarto escuro, recebia água e alimentos por uma pequena abertura na porta, mas ao terceiro dia esqueceram-se dele. E apenas escapou quando a velha que primeiramente o abordou lhe abriu a porta e perguntou:
- Quem és tu, o que fazes na cidade do vento, estrangeiro?- e não abriu a boca.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Paul Court, o viajante do Médio Oriente

Cheguei à estalagem depois das duas da manhã.

No quarto 5, no primeiro andar, e por cima da recepção, instalou-se Paul Court, o inglês gago, 10 anos atrás. Segundo Alvarez, não sai do quarto mais do que 10 minutos por dia, o suficiente para permitir que madame Sophie, que ele detesta, lhe arrume o quarto. "Velho porco inglês, fora daqui! Fora daqui!", grita-lhe madame Sophie. Paul Court desce as escadas aos gritos e corre num susto para o outro lado da rua. Espreita nas pontas dos pés para as janelas do seu quarto - ora num pé, ora noutro, sem descanso; levanta o queixo, afina o olhar, brame os punhos com fúria no ar. Quem passa na rua não deixa de reparar nas ceroulas encardidas de Paul Court e na jaqueta do exército de Sua Majestade, desfigurada por camadas de botões cosidas aleatoriamente. Quando madame Sophia acaba de arrumar e de limpar os aposentos de Paul Court, e ele assim o percebe, entra a correr a toda a velocidade na estalagem, trepa os degraus dois a dois e entra no quarto, batendo a porta com estrondo. Muitas vezes, ainda madame Sophie não acabou a limpeza e novamente corre Paul Court para o outro lado da rua, espreitando para dentro do quarto nas pontas dos pés. O inglês gago apenas come bolachas e bebe água, receitou-lhe esta dieta um sábio nómada. Paul Court é especializado em viagens pelo Médio Oriente, e já visitou os seguintes países e territórios: Afeganistão, Arábia Saudita, Bahrein, Chipre, Iémen, Iraque, Irão, Jordânia, Omã, Palestina, Síria, Sudão, Líbia, Líbano. Alvarez desconfia que Paul Court sofre de uma doença qualquer, embora não se atreva a tentar adivinhar qual. "Quem o devia saber era o doutor Mnérides,  especialista em mitologia da medicina. O doutor Mnérides sabia de cor todos os catálogos de doenças, físicas, mentais ou transcendentais, escritos desde que se escreve neste planeta. O doutor Mnérides saberia, por exemplo, discorrer prolongadamente sobre a doença dos pés verrucosos do povo Maia: causas, primeiros sinais, sintomas, diagnóstico diferencial, características e consequências físicas e emocionais para o portador, evolução da doença, impacto na comunidade próxima e distante, percepção dos doentes pelos membros da comunidade interna e externa, implicações nos cuidados de saúde da família, etc.. O doutor Mnérides foi um grande sábio. Morreu no ano passado, não se sabe de que doença. Uma grande perda. O doutor Mnérides não deixava sair ninguém desta estalagem sem um exame completo, incluindo fígado, pâncreas e coração. Mas já morreu."

Digo-lhe adeus, até amanhã, espero acordar cedo no dia seguinte, explico.
Descendo as escadas duas a duas, vem Paul Court. Dirige-se em corrida para o outro lado da rua, estica-se em bicos de pés e espreita para dentro do seu quarto.
- Paul Court é sonâmbulo - explica-me Alvarez.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Clube das Incertas Viagens e Remotas

No Clube das Incertas Viagens e Remotas juntam-se frequentemente duas velhas que sabem muito bem jogar o bridge e conversar sobre os mais diversos assuntos. Ocasionalmente, brindam fora de horas a factos tais como a Tomada da Bastilha e a queda do castelo de Montblanc, no norte França, às mãos da dinastia dos Sioux, que de índio ostenta apenas o nome. Oleonor, a turca, e também a mais velha das velhas, queixa-se amiúde da perna direita e refere que se não fosse o cão alsaciano que deixou na sua casa do lago, em Tuz Baraji, jamais a Turquia a tornaria a ver mancar.
- O Kirse ladra de acordo com a hora do dia e com a cor do céu. As saudades são a pior das campanhias.
Lá fora, a noite cai com esplendor, e as brasas escondidas no céu acendem-se por ordem dos viajantes do tempo. Uma aragem surda corre baixinho nas ruas e o silêncio regressa ao lugar que sempre conheceu. Hispéria alonga os braços e desfalece no canapé.
Encostados a uma mesa do canto, eu e o meu tio bebemos cafés calados. As velhas falam alegremente sobre fatalidades; como falecer com dignidade, é esse o tema da conversa. Oleonor insiste: a alma do viajante não reconhece a morte como sua. A ossuda Ingrid defende a universalidade da morte, mas sem grande convicção, pois, apesar da racionalidade do seu argumento, também lhe custa admitir que o viajante não passe de um mero mortal e não habite o mesmo céu de Zeus ou de Hera.