O bufão azul encosta a cabeça a um cântaro de água e sonha com a lua nas mãos de uma menina. Assim que acorda do sonho acordado, e num repente, tange o alaúde com bastante exactidão e declama enlevado um terceto marítimo. A corte aplaude.
(0 crescimento das árvores em Hispéria decorre como noutro lado qualquer, e é bastante aborrecido para descrever, ainda pior para ler.)
Hispéria (ou Hespéria) 1. Uma das ninfas inácides concebidas pelo potâmoi Ínaco 2. Hispânia ou Península Ibérica (Hespérica), tal como referida por Camões 3. Cidades dos Estados Unidos da América (Califórnia e Michigan) 4. Asteróide descoberto em 1861 por Giovanni Schiaparelli 5. Espécie de insecto (Aphaenogaster hesperia) 6. Espécie de gastrópode (Inodrillia hesperia) 7. Região do planeta Marte (Planum Hesperia) 8. Espécie de borboleta 9. Jornal (Hesperia) académico de Arqueologia 10. Cidade da Península Ibérica para onde confluem viajantes de todas as partes do mundo e centro mundial de estudos em mitologia (Hispéria).
segunda-feira, 23 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
As putas tristes de Dom Sebastião
As putas tristes de Dom Sebastião estavam sentadas nos bancos da entrada do mercado; sentadas e tomadas de enorme quietude, treinando para virem a tornar-se elevadas e experientes estátuas humanas, tais como as expostas nos grandes centros culturais do mundo.
- Barcelona domina o mercado das estátuas humanas. O meu sonho, o meu sonho de vida é transformar o centro de Hispéria numa exposição permanente, de modo a rivalizar em número e em imponência com Barcelona, com Tiblissi e com Bacu.
Empoleirado num precário estrado formado por duas caixas de peixe, Dom Sebastião socorre-se do seu computador portátil para discursar. Munira-se também de um projector e de uma tela branca. No entanto, o projector recusou-se a funcionar, e o belíssimo Powerpoint construído na noite anterior, e que incluía figuras de Degas, imagens de senhoras da Bélle Époque, pinturas de Akirah Jhuri, o pintor iraniano, e colagens de Tyuiruja Manaui, a artista cambojana, aguardava, certamente consternado, por melhores dias. As putas tristes de Dom Sebastião são ex-prostitutas de Port Moresby, cidade costeira da Papua Nova Guiné; 10, no seu total: Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa. Todas elas entristeceram subitamente no dia 17 de julho de 2010, pelas 3 horas da tarde, enquanto olhavam distraidamente o mar. Sem saberem o que fazer, inscreveram-se para estátuas humanas, tal como anunciado no jornal; o objectivo partilhado era simples: petrificar a tristeza para que não a sentissem mais.
Dom Sebastião acabou a sua apresentação pública, desceu do estrado debaixo de uma pequena mas entusiasmada salva de palmas, dirigiu-se a Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa e ordenou:
- Agora meninas, braço direito no ar em forma de papagaio durante 2 minutos.
Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa olharam-se tristemente um e levantaram o braço direito.
- Barcelona domina o mercado das estátuas humanas. O meu sonho, o meu sonho de vida é transformar o centro de Hispéria numa exposição permanente, de modo a rivalizar em número e em imponência com Barcelona, com Tiblissi e com Bacu.
Empoleirado num precário estrado formado por duas caixas de peixe, Dom Sebastião socorre-se do seu computador portátil para discursar. Munira-se também de um projector e de uma tela branca. No entanto, o projector recusou-se a funcionar, e o belíssimo Powerpoint construído na noite anterior, e que incluía figuras de Degas, imagens de senhoras da Bélle Époque, pinturas de Akirah Jhuri, o pintor iraniano, e colagens de Tyuiruja Manaui, a artista cambojana, aguardava, certamente consternado, por melhores dias. As putas tristes de Dom Sebastião são ex-prostitutas de Port Moresby, cidade costeira da Papua Nova Guiné; 10, no seu total: Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa. Todas elas entristeceram subitamente no dia 17 de julho de 2010, pelas 3 horas da tarde, enquanto olhavam distraidamente o mar. Sem saberem o que fazer, inscreveram-se para estátuas humanas, tal como anunciado no jornal; o objectivo partilhado era simples: petrificar a tristeza para que não a sentissem mais.
Dom Sebastião acabou a sua apresentação pública, desceu do estrado debaixo de uma pequena mas entusiasmada salva de palmas, dirigiu-se a Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa e ordenou:
- Agora meninas, braço direito no ar em forma de papagaio durante 2 minutos.
Mana, Mena, Mina, Mona, Muna, Nama, Nema, Nima, Noma e Numa olharam-se tristemente um e levantaram o braço direito.
sábado, 21 de julho de 2012
O livro do escafandrismo
Juan Martinez, o velho sentado a fumar um cubano, é bisneto de Gavian Santa Cruz, um dos primeiros alunos da escola de escafandrismo construída por Napoleão, na Ilha de Santa Helena, em 1986. Tinha por companheiro de turma:Pablo Quintero - 62 anos, sapateiro;
Tina Quintero - 59 anos, irmã de Pablo Quintero, desempregada;
Antonio Benitez - 73 anos, alfaiate;
Juan Bermudez - 32 anos, pirata das Caraíbas;
Fernando Gullén - 58 anos, inspector da polícia;
Helga Liné - 34 anos, costureira;
Alfonso Vallejo - 48 anos, professor primário.
Sob a orientação de Napoleão, o grupo reunia às 7 da manhã. Tina servia o café e o pão com manteiga, e Napoleão desenhava esquemas complexos no quadro. Frequentemente, era interrompido por Helga Liné, que anunciava numa voz aguda: "Senhor Napoleão, não pode ser assim, o menino não comeu nada!". Napoleão continuava a desenhar ainda mais entusiasmado. Para que Napoleão não perdesse todos os desenhos, porque teria de apagar para desenhar novamente, conseguiu que a Marinha Inglesa lhe cedesse todos os quadros de lousa a bordo de todos os navios. Conseguiu juntar 2, um deles partido porque um marinheiro cabeceou-o fortemente para perder os sentidos (um jogo muito popular à altura entre embarcados de longa duração). Helga Liné costurava os fatos, Antonio fundia os metais, Alfonso polia e soldava quando necessário, Fernando coordenava os trabalhos, Juan acondicionava os tubos do ar, Gavian anotava perguntas complexas no caderno de Napoleão, para que ele continuasse a desenhar esquemas no quadro e não interferisse no processo construtivo, Tina assistia a tudo com muita atenção e sem dizer uma palavra - sempre que alguém se sentia ignorado, e portanto mais triste, olhava para Tina, que respondia com um encorajador sorriso.
Às 10 da manhã o grupo saía para ensaiar o escafandro na lagoa funda, mas não sem antes deixar escrita uma série de questões, envolvendo geologia, geografia, geometria, filosofia, psicologia, matemática, física e química, medicina, ventriloquismo e equilibrismo, de modo a que Napoleão continuasse os seus esquemas sem interferir nos treinos.
Às 11 da manhã o grupo parava para recompor a barriga, comendo preferencialmente favas e cubos de carne de frango, acompanhadas de vinho branco.
Às 11.10 mergulhavam Alfonso Vallejo, o professor primário, na lagoa com o escafandro vestido.
Às 13.00 recolhiam Alfonso Vallejo, retiravam as anémonas e as estrelas do mar agarradas ao fato.
Depois de almoçarem, passavam o resto do dia a jogar futebol, com a cabeça do escafandro a fazer de bola.
Tudo isto conta o velho entre uma e outra bafurada de fumo. Despedimo-nos, justificando urgência em chegar ao mercado antes do seu fecho, e viramos costas.
-Este é um dos maiores trapaceiros de Hispéria, deste tempo e do outro também - diz o tio Alcides. - De seguida dirá que tem em sua posse o livro do escanfandrismo com cópias de todos os esquemas de Napoleão, e que, como precisa muito de dinheiro, está disposto a vendê-lo por uma quantia justa, à volta de 15,000 euros. Já vendeu muitos livros de escafandrismo a viajantes de leste, sobretudo, que apreciam muito a arte do escafandrismo. Não são mais do que cadernos gatafunhados pelo sobrinho, um idiota chamado Armand Rafael, inspirados num documentário que passou na National Geographic. Já tentou vender-me o livro centenas de vezes e mais algumas.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Factos desconhecidos
Yuri, o russo que habita a entrada do prédio onde Juan está sentado, grita do escuro: "Há factos desconhecidos, como por exemplo este."
- Este sobreviveu ao câmbrico. Terá valido a pena? - pergunta Juan.
Despedimo-nos do velho Juan com o cubano na boca, a soltar bolas de fumo. "Nem todas as viagens têm finais felizes", diz o tio Alcides.
- Este sobreviveu ao câmbrico. Terá valido a pena? - pergunta Juan.
Despedimo-nos do velho Juan com o cubano na boca, a soltar bolas de fumo. "Nem todas as viagens têm finais felizes", diz o tio Alcides.
O sonho do irlandês
- A caixa craniana de um irlandês é medida por vulgar fita métrica. A caixa craniana de uma irlandesa é medida por vulgar fita métrica. O sonho do irlandês está contido nuns quantos centímetros de ossos. O sonho da irlandesa está contido nuns quantos centímetros de ossos. Hi Ho! O sonho do irlandês está contido nuns quantos centímetros de ossos. O
sonho da irlandesa está contido nuns quantos centímetros de ossos. Hi ho!
Adam Smith, antigo trovador do pub irlandês Black Horse, canta uma velha canção celta sobre a ascensão da ciência matemática. Adam largou Waterfoot, um vilarejo perto de Dublin, e chegou a Hispéria no dia 15 de Agosto de 2011, dia de Nuestra Irmanita de las Velas, dia dos condenados. E por isso ali está ele, Adam Smith, músico de 32 anos, pai de uma filha que não conhece, e que nem sequer sabe existir, fruto de uma noite de cervejas com Nana, a cozinheira francesa da duquesa de Cornwell, a cumprir a penitência ditada pelo destino. (A filha de Adam Smith tem 10 anos, chama-se Anna, e neste momento corre furiosa atrás de uma borboleta nos campos de Hellwood; aos 6 anos desenvolveu um apetite voraz por cabeças de insectos, principalmente grilos e borboletas. A sua boca cheira a bichos mortos.)
O velhote sentado no caixote da fruta expele fumo do cubano e olha por cima da minha cabeça.
- Amigo, assim tapa-me o sol.
Afasto-me para o lado. O tio Alcides, que tinha ficado para trás por força do peso da barriga, chega-se à conversa.
- Amigo Juan, que prazer rever-te!
- Amigo Alcides, como vai o meu amigo?
- Muito bem, amigo Juan - trava o sorriso, baixa-se e desce a voz.
- É mais um câmbrico, amigo Juan?
- Si, si, si. Mais um câmbrico.
O tio Alcides acena a cabeça lamentando a sorte de Adam Smith.
- Pobre diabo.
Adam Smith, antigo trovador do pub irlandês Black Horse, canta uma velha canção celta sobre a ascensão da ciência matemática. Adam largou Waterfoot, um vilarejo perto de Dublin, e chegou a Hispéria no dia 15 de Agosto de 2011, dia de Nuestra Irmanita de las Velas, dia dos condenados. E por isso ali está ele, Adam Smith, músico de 32 anos, pai de uma filha que não conhece, e que nem sequer sabe existir, fruto de uma noite de cervejas com Nana, a cozinheira francesa da duquesa de Cornwell, a cumprir a penitência ditada pelo destino. (A filha de Adam Smith tem 10 anos, chama-se Anna, e neste momento corre furiosa atrás de uma borboleta nos campos de Hellwood; aos 6 anos desenvolveu um apetite voraz por cabeças de insectos, principalmente grilos e borboletas. A sua boca cheira a bichos mortos.)
O velhote sentado no caixote da fruta expele fumo do cubano e olha por cima da minha cabeça.
- Amigo, assim tapa-me o sol.
Afasto-me para o lado. O tio Alcides, que tinha ficado para trás por força do peso da barriga, chega-se à conversa.
- Amigo Juan, que prazer rever-te!
- Amigo Alcides, como vai o meu amigo?
- Muito bem, amigo Juan - trava o sorriso, baixa-se e desce a voz.
- É mais um câmbrico, amigo Juan?
- Si, si, si. Mais um câmbrico.
O tio Alcides acena a cabeça lamentando a sorte de Adam Smith.
- Pobre diabo.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Pequenos apontamentos sobre os peixes de Hispéria
1. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar a não ser através de uma técnica específica dominada por poucos (E esses poucos são realmente poucos: o professor Garvan, que pela manhã come pimentos padrón com açúcar, e a sua mulher, Adrize, que prefere compota com queijo de cabra.)
2. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar a não ser a horas próprias.
3. Os peixes de Hispéria não mostram grande respeito pela abordagem tradicionalista à mitologia da pesca, embora sobre o assunto prefiram guardar reserva.
4. Os peixes de Hispéria são azuis e amarelos como tantos outros animais que existem sob e sobre o mar, com excepção do lobo ibérico, do gnu, da lebre americana e do bufão pardo, que não querem ouvir falar em senhoritas rodando sombrinhas.
5. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar quando as crianças choram nem quando se canta o bolorento hino de Hispéria, composto pelo maestro Javier y Javier, especialista em mitologia da música.
6. Pescar os peixes de Hispéria foi assunto tratado e discutido 20 anos atrás em Hispéria; Garvan e Adrize saíam sempre vitoriosos das discussões e por isso os peixes de Hispéria deixaram de ser falados.
7. "Fui pescar!": eis o que deve ser anunciado por alguém que regressa da pesca.
8. Os peixes de Hispéria entram na categoria "peixe urbano" quando vendidos no supermercado.
9. Não havendo mar em Hispéria, os peixes de Hispéria nadam livremente nos espaços restantes.
10. "Os peixes de Hispéria são cabrões", é a difamação mais comum a que estão sujeitos.
2. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar a não ser a horas próprias.
3. Os peixes de Hispéria não mostram grande respeito pela abordagem tradicionalista à mitologia da pesca, embora sobre o assunto prefiram guardar reserva.
4. Os peixes de Hispéria são azuis e amarelos como tantos outros animais que existem sob e sobre o mar, com excepção do lobo ibérico, do gnu, da lebre americana e do bufão pardo, que não querem ouvir falar em senhoritas rodando sombrinhas.
5. Os peixes de Hispéria não se deixam pescar quando as crianças choram nem quando se canta o bolorento hino de Hispéria, composto pelo maestro Javier y Javier, especialista em mitologia da música.
6. Pescar os peixes de Hispéria foi assunto tratado e discutido 20 anos atrás em Hispéria; Garvan e Adrize saíam sempre vitoriosos das discussões e por isso os peixes de Hispéria deixaram de ser falados.
7. "Fui pescar!": eis o que deve ser anunciado por alguém que regressa da pesca.
8. Os peixes de Hispéria entram na categoria "peixe urbano" quando vendidos no supermercado.
9. Não havendo mar em Hispéria, os peixes de Hispéria nadam livremente nos espaços restantes.
10. "Os peixes de Hispéria são cabrões", é a difamação mais comum a que estão sujeitos.
terça-feira, 17 de julho de 2012
Viajar com o coração fora do corpo
O meu tio não gosta de viajar sozinho. No entanto, por maioria das vezes a que a companhias viajadas se refere, invoca algo assim:- Gosto de viajar sozinho! - esta é a voz dele. Queira o leitor aproximar-se mais, apenas um pouco mais, assim está perfeito, e atente: além do pigarrear britânico do meu tio, medalha colada ao peito durante uma noite de tempestade maldiviana imensa, sentirá o leitor um certo amargo, uma certa tristeza e uma subtil saudade dos portugueses que só assim, quase rosto no rosto, se sente. Desta forma terei feito de si, caro leitor, cúmplice para denodar o tio Alcides da convicção com que afirma gostar de viajar sozinho. Dizem os mais próximos que tal se deve aos encantos defuntos por uma amantíssima princesa saudita, avistada num palácio de pedra da Mesopotâmia e que nunca mais apartou do pensamento. Sara Sudairi era o seu nome. Suicidou-se num penhasco onde as águias nidificam. Era louca, de acordo com o registo médico que tive a oportunidade de consultar livremente, por amabilidade do rei Abdulah. Esquizofrenia, para o médico. Alma livre, para o rei Abdulah. A consistência dos passos humanos pesaria muito na alma frágil da princesa e por isso atirou-se do penhasco, convicta de que a força das suas asas a levaria aos céus - assim me explicou o rei. Sara foi a primeira paixão do meu tio, e foi fulminante. Viajar sozinho transformou-se numa fatalidade e também numa fuga ao buraco no peito onde Sara estivera, quando dantes era uma fúria e um sangue que inflamava as veias. Terá sido aí, na paixão não cumprida por Sara, que nasceu esta portugalidade do meu tio, esta rouca quase muda saudade e esta dolorosa e paradoxal necessidade de viajar sozinho. Mas ninguém tem a certeza. Eu não tenho.
- Gosto de viajar sozinho! - exclama o meu tio.
- Não tenho a menor dúvida disso, meu tio! - respondo-lhe. E seguimos.
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